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ReBrain

  • Foto do escritor: Maxx Figueiredo
    Maxx Figueiredo
  • 27 de fev. de 2018
  • 8 min de leitura

Atualizado: 10 de fev. de 2020

Para quem não me conheceu, vou lhes contar para que possam mergulhar mais fundo nessa história.

Para quem não me conheceu, vou lhes contar para que possam mergulhar mais fundo nessa história. Nunca fui santo. Sempre fui muito agitado. Corria muito de um lado para o outro. Sempre fazendo mil coisas. Freelas, viagens, países. Ficar parado não era comigo.Minha infância foi normal. Como qualquer criança dos anos 80. Morava na Rua Ubaporanga, 51, no Jaçanã, apesar de ter nascido no ano de 1973 no Bairro de Vila Maria, moramos pouco tempo neste bairro, logo fomos para o Jaçanã. Meu pai, nascido em São Vicente, Santos, vinha de uma família de militar e minha carioca mãe com origens no circo. Meu pai dentre outras coisas foi lutador de boxe, e minha mãe tocava piano e fazia “corda indiana”, para quem não sabe é ficar rodando presa pelo cabelo, e meu avô conduzia esse espectáculo. Meu avô Manolo, foi muito famoso no circo na sua época. Fazia um show de equilibrismo, “rola-rola” tinha muito orgulho de ser neto dele. Percorreu diversos países com o circo, de cassino da Urca, Mouling Rouge, até Ringling Brothers (aquele te 3 picadeiros simultâneos). Sim, ele tinha muita história legal com anões e mulheres barbadas. Me ensinou a dar moral para trás me segurando com uma toalha na cintura (sonja). Com origens tão diversificadas, poderia optar ir para ESA, (Escola de Sargentos Armados) em três Corações Minas Gerais seguir carreira militar ou virar palhaço no circo. Fui optar por desenhar. Nada a ver com nada. Mas a ver comigo. E tive apoio total deles nisso.No Jaçanã tinha brincadeiras de taco (Betty), vôlei de rua, onde a rede era uma corda amarrada entre os postes. “beijo abraço, aperto de mão... Salada de fruta” na calçada, comer tomate com sal... Pintávamos a rua em época de copa. Pendurávamos bandeirinhas entre os postes em Junho, soltávamos balão (antes não era crime), lavar o carro na garagem para depois passear nele sem cinto de segurança (antes não era obrigatório), Colocar lona no portão da garagem para fazer bailinho no seu aniversário, trocar figurinhas, jogar bolinha de gude, se matar correndo atrás de uma pipa caindo do céu, tinha gente que até entrava nas casas e subia nos telhados para pegar aquela pipa sem vergonha. Moíamos vidro para fazer cerol, rodávamos pião. Coisas boas.A coqueluche da época era o Michel Jackson. Como eu dançava em qualquer lugar, e bastava ter uma caixa de som para eu já sair pulando, não precisou muito para eu estar imitando ele no Programa Barros de Alencar, da TV Record. Me apresentava toda semana, cheguei a ir umas 4 ou 5 vezes lá competir. Foi muito legal. Tinha uma menina que dançava muito, a chamavam de Maica Jeca! O prêmio final era um Atari!! Ao final não ganhei o Atari da Record, mas ganhei do papai Noel. Era o início dos novos tempos. Tínhamos uma cafona inocência, porém com um groove new-wave. Mas mesmo tendo um Atari, um video game de última geração, mil vezes melhor que nosso telejogo e mais popular que o Odissey das lindas gêmeas que moravam na casa da frente, não tinha nada melhor que andar de bicicleta. Me lembro que aprendi a andar numa Berlineta dobravelzinha. Isso mesmo, ela dobrava o quadro. Moderno, né? E eu achava ridículo, mas era o que tinha. Melhor que a “Ceci” com cestinha para levar flores, ou a gigante barra circular com banco do Palmeiras com franjinhas.Me lembro que meu pai levava a gente até a Praça Roosevelt, para aprender a andar de bike. Eu e meu irmão adorávamos andar naqueles vãos livres do centrão. Nessa época não existia ciclovia. Tenho em mente até hoje a sensação das rodinhas laterais não encostando no chão. Meu pai me dava um empurrão no banco e eu ia a milhão. Logo pedi para tirar uma e depois as duas rodinhas. Daí o barato era fazer curvas inclinadas. Uhúu radical minha Berlineta dobravelzinha e meu Conga branco. Sim, conga porque Kichute diziam que deformava o pé.Quando lançaram o filme do E.T. a bicicleta cross virou uma febre. No dia que um amigo meu, o Vandicoque, apareceu com uma bicicleta cross na rua todo mundo queria. A mais cobiçada era a extra-ligth da caloi. Na ocasião eu usava uma emprestada, uma BMX de banco banana, que freava pedalando para trás. Uma merda. O mais legal de quando se está pedalando e se pega embalo é girar para trás, e quando sem perceber fazia isso, ela freava com tudo. As vezes saía a corrente, e lá ia eu encher a mão de graxa. Tinha vergonha dela. Um dia fui pular uma rampinha improvidada, aquelas que se colocam da rua para calçada para os carros entrarem na garagem, e me dei mal. Vinha pedalando a toda velocidade quando estava no ápice de meu vôo com minha BMX minha mãe aparece na janela e dá um grito. Claro que no susto me estabaquei de bunda no chão, a roda de trás travou e saiu pulando rua abaixo, seguida pelos vira-latas de prontidão. A rua inteira rindo, e para completar levei uma surra por estar fazendo coisas perigosas com a bicicleta. Não deu tempo nem de explicar que as chineladas batiam em cima do ralado na bunda. Entrei apanhando, depois os amigos tocam a campainha e minha mãe grita: — Ele não vai mais sair hoje! E lá fora um garoto. Só vim entregar a roda da bicicleta.E por falar em campainha. Disparar a dos vizinhos travando com palitinhos era nossa maior diversão. Com o tempo ganhei um caloi de Natal. Eu e meu irmão.Éramos os reis da rua. Tínhamos nossa turma de easy-riders, ou easy-bikers. Um dia fomos do Jaçanã até a pistinha da BMX da República do Líbano pedalando. Para uma criança de uns 12 anos, 20km era como se tivesse dado a volta ao mundo. Aliás voltar foi mais duro ainda. No dia seguindo ninguém conseguiu sair de casa. Tudo dolorido, mas maravilhados.Meu pai gostava de correr. Treinava todo ano para a São Silvestre na Av. Zaki Narchi. Daí ele me levava com minhas irmãs mais velhas para treinar com ele. Isso me dava mais condições físicas para pedalar mais.Com o tempo fomos crescendo, alguns irmãos saíram de casa, outros casaram e a família foi se dissipando. Alguns anos se passaram e muita coisas rolou. Já em 92 entrei na FAAP no curso de Rádio e TV e em 1994 já fazia parte da equipe de efeitos especiais do internacionalmente premiado programa infantil Castelo Rá-Tin-Bum da TV. Cultura. Vivia correndo, de manhã tinha Fernando Meireles, Cao Hamburger, dentre outros, dirigindo e a noite alguns destes diretores eram meus professores. Foi uma experiência incrível. Fazia muito Story-board para produtoras na época como O2, Filmmakers, Croma, Adrenalina. E para dar conta de tudo só indo de moto.Sempre gostei muito de motos. Tive uma XL 125cc, uma XL250cc, uma CB450cc DOHC (isso mesmo, aquela antigona) foi um sonho comprá-la, pois era igual ao meu primeiro kit de montar da Revel que montei quando criança. Mesmo ela só me dando problemas, adorava aquela moto. Ficava mais parada na oficina que andando. Era o próprio kit Revel, só que grande. Passava horas desentupindo os dois carburadores dela, duas agulhinhas minúsculas. Mais tarde comprei uma Virago125cc.Fiz muitas viagens à Floripa com elas. Me lembro de uma que fiz com a XL125cc. A idéia partiu de uma sensação de vazio pós Natal. Falei para mim: — Vou passar o ano novo em Floripa. Mas não tinha onde ficar, mas tinha certeza que iria me virar. A BR101 é horrível. Para uma motoquinha 125cc então. Cada caminhão que passava me sacudia pelo vaco, o farol iluminava um pouco mais que meu pára-lama, os buracos me faziam lamentar quem pegava pedágios e a chuva me cortava os ossos, mesmo assim eu adorava tudo aquilo. Saí daqui de noite e quando cheguei em Blumenau, fui presenteado com um sol escaldante, bananeiras fartas na beira da estrada e uma sensação de liberdade que só uma moto pode dar. Pausas em bicas para refrescar, amigos provisórios em postos de gasolinas, indo para o mesmo lugar. Caminhoneiros e suas peculiaridades. Nesta viagem cheguei a dormir numa casinha de um playground público na praia mole. Fiz uma amizade na praia com uma menina que me deixou dormir na casa de sua mãe. Mas tive que fugir pela janela porque a mãe dela ficava me agarrando e não era nenhuma “prenda”. Tava mais para prenda e solte! Coisas que só estando numa moto para descrever. Ao final encontrei uns amigos de São Paulo e passamos a virada do ano juntos, todos bem adocicados, pulando ondinhas que pareciam rolos de papel celofane. Na volta, no meio da estrada minha moto desiste de funcionar. Fiquei parado pedindo carona para algum caminhoneiro caridoso. Eis que passa uns amigos meus e me vêem na estrada. Um deles gritou: Pára! Acho que vi o Maxx na moto lá atrás. Meus olhos não acreditaram quando vi que me acharam no meio da estrada e decidiram parar. Expliquei que a moto não pegava e ele perguntou se podia tentar fazer ela pegar. Com apenas um quique na moto, ele fez a moto pegar. Milagre! Pezinho mágico do Rodrigo Volponi. Ela pegou e veio direitinho até São Paulo.Bem diferente de outra história, com a guerreira XL125, quando fui procurar emprego no jornal Lance! No Rio de Janeiro. Com um portfólio A3 na garupa, a moto quebrou logo depois de Aparecida, botei a moto na carreta coberta de um caminhão e subi junto. Fui deitado do lado da moto e com o teto do caminhão a três palmos da minha cara. Fui picado por milhões de mosquitos a viagem toda. Uma tortura! Quando cheguei, olha a ironia, estava na fábrica da Bayer em Bolford Roxo. Acabei parando numa oficina mequetrefe onde os caras fizeram a limpa no meu motor trocando todas peças boas por paralelas. Fiz a entrevista, e voltei para buscar a moto. Na hora não percebi nada, mas quando cheguei em São Paulo a moto praticamente desmontou sozinha que nem castelo de cartas.Em 1999, em uma viagem a Indonésia, mais precisamente Probolingo, fiz minha última viagem de moto. Eu e meu cunhado irlandês Eoin, fizemos o que seria minha maior revolução astral. Visitamos Bali, Malásia, Singapura, Jakarta, fomos de moto em vários lugares com um forte apelo religioso, vários templos, vários vulcões, luaus, tribos de macacos, Komodos. Lá encontrei meu Maxx primal. No melhor sentido da palavra provinda do latim, religare, achei o sentido da religião. Ligar de novo. Vi que andava meio desligado. E em um lugar sem internet, me reconectei. Mas foi no vulcão de Bromo que pude tocar o silêncio. Depois de um trajeto feito a cavalo sob a fuligem cinza vulcânica e a infinita escadaria que subi, lá em cima pude ter a certeza de que alí nascia um Maxx novo. Mais forte e mais energizado. Capaz de gerar sua própria fonte de energia. Ser seu próprio guru e aprendiz. Ser seu. Ser próprio. Proprietário idiossincrático de seu tempo (seu corpo).Foram muitas aventuras em duas rodas. Muitos amores, muitas dores, mas toda essa veia estradeira acabou pouco antes de 2003, em Lisboa, quando nascia Pedro Gaia, meu filho. Aposentei por completo, moto e o carro.Em 2002 havia decidido morar na Europa e fiquei sem dirigir moto ou carro, até 2006, quando voltei a Brasil e comprei um carro para a família e uma moto para trajetos curtos. Muitos não me aconselhavam voltar a andar de moto, por ter mudado meu padrão de vida, por ser perigoso e ter um filho para criar, ou simplesmente por que moto é perigoso. Eu não ligava, não via a moto como arma, apenas como um meio de auto-conhecimento. Na moto eu me sentia comigo mesmo. Meu peito vibrava, o vento me fazia carinho e meus músculos enrijeciam-se. Era sexy e leve. Me sentia pleno naquela corda bamba. Era como estar acima da morte. Apneia, Orgasmo. A mesma sensação de quando aprendi a andar de bicicleta, sem as rodinhas laterais. A mesma emoção eternizada. Sensação de vitória, felicidade de cachorro com a cara para fora da janela do carro. Não via perigo, mal sabia que aparentemente ali, começava uma nova grande revolução.

 
 
 

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