Partes de mim e não voltas mais.
- Maxx Figueiredo
- 10 de fev. de 2020
- 5 min de leitura

Cortar a perna não é problema. Aliás os médicos lhe apresentam essa opção como a melhor coisa a fazer. Como se você, leigo no assunto pudesse escolher contradizer a supremacia médica e todo o panteão hospitalar baseado no seu apego ao seu corpo. Mas lhes digo. Sim, passou pela minha cabeça negar a decisão e me manter com o que me restava. Mas acabei por desistir e aceitar a segunda amputação era o de menos. Era reparatória. Me prometeram que seria melhor para protetização. Preferi confiar neles. A primeira amputação e a mais tensa eu não percebi nada. Não senti dor. Não estava ali. Mesmo meus gritos sendo ouvidos do lado de fora da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, eu não lembro de nada. Acho que apaguei. Deletei esse sentimento da minha mente.
A cirurgia foi reparatória. Um corte pouco mais acima do joelho. Resumindo, iria não apenas ficar sem o pé, mas iria perder a articulação de meu joelho.
Essa idéia me assustava bastante, mas nada foi mais tenso do que deitar em uma maca e achar que a anestesia lhe faria não perceber nada.
Daí você pergunta. Mas você não estava anestesiado. Eu lhes respondo, sim, mas não totalmente. Há uma percepção. A anestesia não apaga todos os sentidos. Até porque era uma anestesia local. E por trás daquela cortina azul que colocaram na linha de minha cintura, eu podia perceber todos os movimentos de entrada e saída nas laterais da cortina. Como num show de horrores com censura e drogas para você não entender muito bem o que estava se passando ali.
É incrível como eu conseguia vislumbrar os movimentos por trás do pano. Via o médico indo na mesinha lateral e pegando uma tesoura, ouvia o abrir e fechar da tesoura, mas um fechar mais curto e seco, acompanhado de um obrigado. Imaginei que essa tesoura tivesse algo na ponta, pois o barulho seria mais agudo e contínuo proporcional ao tamanho do barulho da abertura. Logo um vai e vem sob meu joelho. Imaginei. Devem estar limpando com gaze. Depois um som mais pesado de uma tesoura sendo colocada na bandeja. na sequencia vários barulhos confusos, tentava decifrá-los como um cego em tiroteio. Sabia que havia uma serra que girava em alta velocidade em cima de sua perna fazendo seu corpo balançar pelas repuxadas que a pele dava, somadas ao cheiro ímpar de osso queimado. Não havia dor. Mas havia um barulho desgraçado da porra da serra girando. Mas anestesia me fazia feliz. iniciava-se uma lentidão na percepção, nos olhos, e um sono gostoso. Quando voltei ainda sonado, sentia as repuxadas dos pontos finais. Como se estivesse carregando um queijo parmesão daqueles que ficam pendurados na parte dos frios no supermercado.
Um consolo desfocado eu ouço. Foi tudo bem viu. Parabéns, você foi bem forte. Meio grogue pensei. Já acabou Jéssica? E lá foi para o cantinho na sala dos pós
operados. Um lugar como qualquer outro lugar no hospital. Mas não era meu quarto, meu leito, nem a sala de operação. Era um podium. Um lugar onde só quem sobreviveu a mesa operatória vai. Uma linha de chegada. Me senti condecorado com meu novo queijo parmesão enfaixado. Só queria que aquilo terminasse bem. Só queria ver meu filho. Comer, voltar a minha vida vertical. Enquanto isso curtia vertiginosamente o fim da anestesia. Pousava e repousava de minha viagem ao mundo da mutilação feliz. Onde os sádicos se parabenizavam pelo joelho arrancado. Sorriam felizes por ligar os músculos que aprenderam a ligar. Sim, pois poderiam ter ligado o oblíquo que faz a perna fechar. Mas preferiram deixá-lo solto, pois seguramente não imaginariam que eu necessitasse usá-lo futuramente. Muito menos eu. Então, na ignorância ou informação vigente, todos ficaram felizes com o grande feito.
Porém, até hoje não sei onde foi parar meu joelho ou meu pé. Talvez na mesa de alguém que determina a verba para qual hospital necessita mais, baseado em números de amputações. Sim. Muitas vezes, uma amputação é feita sem necessidade apenas para gerar estatística e ser apresentada para solicitação de materiais.
Os dias seguintes foram de monitoramento. Como uma mãe que ganha um bebe eu ganhei meu queijo parmesão no lugar da perna. Semana a semana fui progredindo. Limpar, retirar os pontos, passar lixas para ir acostumando com a sensibilidade, encontrar um novo ponto de equilíbrio na fisioterapia. Isso sem contar que só tinha um braço para me apoiar. Pois o outro estava cheio de pinos e com a mão em formato de garra. Nessa condição, sem a perna direita e sem apoiar do lado direito, me via numa situação de se tivesse que cair teria que ser para a esquerda. Pois se caísse para a direita seria uma tragédia.
Pular na cama elástica, colocar cones em cima de outros cones, saltitar nas barras paralelas era meu dia-a-dia. Aos poucos comecei a gostar disso. Era mil vezes melhor que ficar no meu leito. Pois podia ver gente. Gente alegre. Disposta a me ajudar, me fazia massagens nos braços. Me sorria quando quase caía. Me olhava no fundo dos olhos e falava que iria sair dali e voltar a ser quem eu era. E melhor!
No fundo não acreditava muito. Mas eles sim. Como nunca estive naquela situação e eles sim. Preferi acreditar neles no final das contas.
Havia uma pessoa que foi muito importante para mim, Angelica Berford. Ela tinha uma energia no sorriso e um brilho nos olhos que me dava prazer descer alí e fazer a fisioterapia. Era maçante, repetitivo, cansativo. Mas com ela não. Ao final voltava para a cadeira de rodas, comidinha sem graça e cama. Mas aqueles minutos eram legais, me sentia na sociedade. Me sentia incluso até voltar para o quarto, onde o branco das paredes me fazia perceber que nada mais teria cor, aquela ausência de cor nos lençóis, no travesseiro, no chão, no teto se fundia comigo, me fazendo ausente dos meus amigos, trabalho, família, filho... me sentia bastante ausente de tudo naquele quarto. As vezes chamava a enfermeira só para fazer uma pergunta existencialista e profunda, baseada nas minhas reflexões na intenção de encontrar um conforto, mas só encontrava respostas do tipo. Dorme, fica bem, daqui a 6 horas volto para trocar seu soro. O que esperar de uma plantonista, que não chora ao ver sangue, não se emociona ao ver uma pessoa gritando de dor? Ela só está alí para ordenhar o soro e colocar remédios nos copinhos de café. E eu devia me sentir grato de ter um governo que me oferece esse maravilhoso serviço, sem me cobrar nada. Apenas alguns homeopáticos impostos abusivos para cada vez respiro.
Mas o sol nasce todos os dias para todos. E um belo dia consegui sair daquela situação de hóspede. Hospedado. Saí pela porta da frente em uma cadeira de rodas doada por uma pessoa estranha. Que só apareceu para fazer essa cena. A pessoa que doa a cadeira. Se um dia fizer um filme, essa pessoa pode ser uma pessoa bem famosa. Pois pelo tempo que ela aparece dá para pagar o cachê, pois será 3 segundos. Mas graças a essa cadeira pude me locomover bastante. Foi um mega presente, posto que uma cadeira de rodas aqui no Brasil é mega cara.
A melhor sensação que tive ao sair de lá foi entrar em um carro e olhas os prédios passarem pela janela do carro. Chorava como criança. Sentia o vento batendo no rosto, me lembrava com uma certa dor no peito do vento que sentia quando andava de moto. Sabia que ali era um novo começo. Poderia enfim ver meu filho.
Poderia enfim voltar ao lar. Ter uma nova oportunidade de reviver uma vida que poderia ter acabado sem uma despedida, sem um planejamento. Poderia ter a chance de redesenhar de verdade minha vida. Mesmo apreensivo sobre como tudo seria a partir dali, me sentia confortado, amparado, amado.
O vento secava minhas lágrimas, e refrescava minha alma. Poderia finalmente tomar um
sorvete de limão.
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