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Mentira Daqui!

  • Foto do escritor: Maxx Figueiredo
    Maxx Figueiredo
  • 4 de jun. de 2020
  • 5 min de leitura

A pesquisa, realizada por Robert Feldman, é o meio-termo entre levantamentos desse gênero. O mais baixo, determinou que as pessoas mentiam duas vezes ao dia. Outro, com índice mais alto, mostrava que a frequência de mentiras seria de três inverdades a cada dez minutos de conversa. Um artigo publicado pelo Instituto Nacional de Psicologia e Neurociência estima que as pessoas mintam em média 200 vezes por dia.

De todas mentiras, nada mais chocante que a única apresentação e transmissão da peça de radioteatro A guerra dos mundos, encenada no Mercury Theater on the Air, baseada no livro de ficção científica do escritor inglês Herbert George Wells (H. G. Wells). Em 30 de outubro de 1938, véspera do halloween, a notícia em edição extraordinária de uma invasão alienígena à Terra provocou pânico nos Estados Unidos e fez a CBS a bater a emissora concorrente, NBC. O programa relatou a chegada de centenas de marcianos a bordo de naves extraterrestres à cidade de Grover's Mill, no estado de Nova Jersey.

Os méritos da genial adaptação, produção e direção da peça eram do então jovem e quase desconhecido ator e diretor de cinema norte-americano Orson Welles. A invasão dos marcianos durou apenas uma hora, mas marcou definitivamente a história do rádio. O jornal Daily News resumiu na manchete do dia seguinte a reação ao programa: “Guerra falsa no rádio espalha terror pelos Estados Unidos”.

Mentiras que protegem, acalmam, tranquilizam até as que ferem, enganam e geram danos maiores são inerentes ao ser humano. Desde a chupeta, primeira mentira, que só é descoberta quando a fome se transforma em choro pelo bebê, mentir faz parte da vida. Bom dia você está bem? Sim. Estava de passagem e resolvi te chamar. Me liga! Ligo sim. Você está muito bonita, Obrigado você também. A gente se vê. Nossa! Esse jeans ficou ótimo em você, aproveita leva essa blusinha pra combinar, te deixa mais magra. Como uma escola, vamos sendo treinados a mentir, a ser quem não somos, a sentir o que não sentimos até não mais sabermos quem somos e vagar por um oceano de mentiras.

Como um artista do conto “Nasce um artista”, que em crise de estilo, passa a copiar outro artista famoso pra tentar repetir seu sucesso, ou as meninas que copiam o vestido da outra, ou o rapaz que numa mimese imitando os movimentos dos colegas, para tentar pertencer e estar inserido no grupo. A necessidade de mentir supre a vontade de se relacionar, se se conectar, de se ligar a outra pessoa. Usando os verbos de ligação: (Ser, estar, continuar, andar, permanecer, ficar, tornar-se parecer), podemos vislumbrar inúmeras situações. A mentira insere, poupa, obscurece, preserva. A verdade revela, ilumina, liberta e exclui. Ambas podem ser úteis e desastrosas. Como remédio e veneno, onde ambos podem matar, apenas mudando a dosagem.

Quando criança testamos e somos testados. Os pais mentem sobre monstros ou Papai Noel, coelinhos e as crianças escondem suas travessuras e manipulam sentimentos para conseguir vantagens. Quando jovens, todas pessoas mentem e aquela que mente mais, o que copia mais o ídolo do momento, a pessoa que simula mais, ou chega mais perto de ser uma cópia do que todas pessoas querem, esta será a mais inserida e querida pelo seu grupo. Se tornará líder, e vê que mentindo conseguiu o poder, que só pode ser tirado com a verdade. Mas a verdade é inconveniente e poucas pessoas a querem.

Aceitamos a mentira para manter um casamento, a alegria dos filhos, poupar uma vergonha. A frase “rouba mas faz” resume bem a esse necessidade de omissão da verdade visando uma vantagem.

A notícia fake, ou falsa, se mescla ao que eu não quero ouvir. Desmentir um post de facebook se tornou lazer para hipócritas pseudo amantes da verdade. Como Sherlock Holmes se empenham em buscar no Google e fontes extraordinárias, um contra fato, uma antítese, algo que revele que tal fato é mentira. E depois desse ato heróico, se voltam para suas mais absurdas mentiras. Se chocam quando são roubados por um menino de rua que precisa comer ou se drogar para aguentar sua subsistência, mas não se chocam quando ouvem um homem desviar milhões do seu dinheiro que seriam usados para comprar respiradores em um hospital provisório que nunca funcionou. Se sensibilizam com a quantidade de mortos pelo mundo, mas não telefonam para sua família ou seus amigos próximos para saber se estão bem. Talvez essa preocupação seja porque não há mais amigos próximos muito menos distantes, sequer uma família para se importar. Muitos até tem essa família, mas os afastam, por não suportar suas ideias e o convívio. Mas seguem solitários, e impotentes se entretendo caçando fake news em redes sociais, para não ter que encarar a vida fake que vive.

A notícia fake, ou falsa, se traveste de liberdade de expressão para poder circular no meio de outras inverdades maiores. No meio da necessidade de criar estádios ao invés de hospitais, da necessidade de roubar cofres públicos, da necessidade de não virarmos uma Venezuela. Alimenta a necessidade de mentira do povo, onde lhes é dado a mentira conveniente do momento. A promessa do corretor de imóveis, quando lhe vende um apartamento na planta. A promessa de um carro que seduza e te torne potente. A promessa de um cargo que faça ser respeitado. E quando ela, essa mentira, se torna uma ameaça na possibilidade não se se tornar verdade, mas de abafar outra mentira maior, ela começa a ser perseguida. Como dois homens tentando seduzir uma garota numa festa. Cada um mente proferindo fatos gloriósos de si e vergonhosos do outro, e a garota tem que decidir qual mentira lhe convém mais. E depois de escolher e mais tarde descobrir a verdade, decide sofrer ou não. Até chegar o dia, onde não mais importará se a pessoa mente ou não. Essa garota, aprendeu o jogo. Mentindo acreditar na mentira dos homens, os engana em benefício próprio, se deixa enganar enganando, e em comum acordo ambos se enganam enganando seus filhos, amigos, fazendo-os acreditar que tal mentira é um ”verdade provisória”, pois nenhum deles conhece a real verdade. Casam e quando separam, verdades borbulham em acusações anacrônicas de um tempo que não pode mais voltar. Amigos se espantam, e julgamentos cruéis são feitos. Advogados criam novas leituras dos fatos e a vida segue. Mais uma vida fake revelada, que caminha em busca de próxima utopia em aplicativos que reproduzem os verbos de ligação.

Ninguém gosta de mentiras, elas nos fazem de trouxas, nos desiludem, nos machucam. Mas ao mesmo tempo, buscamos ilusões, nos machucamos com drogas e nos permitimos ser trouxas pelo governo. Ninguém está satisfeito em de ser quem é. Mas ninguém consegue ter coragem pra ser verdadeiro o dia todo, muito menos suporta a verdade homeopática dos outros, quiçá uma dose cavalar. Desejar sempre será o verbo que te move. Desejo de verdade, desejo de mentiras, de todas as magias, ilusões ou truques pra uma existência segura, a magia de estar vivo já me satisfaz. O resto é puro teatro de sombras. Dançaremos com essas sombras, sejam elas reais ou de papel. Ilusionistas e iludidos, conectados como uma sombra até que a luz mude de direção.


 
 
 

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